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Tipo: Dissertação
Título: Simetrias inesperadas: a história não-dita do Memorial de Aires, de Machado de Assis
Autor(es): Morais, Nicole Dourado de
Orientador: Bergamini Junior, Atilio
Palavras-chave em português: Memorial de Aires;Machado de Assis;Escravidão;Forma literária
Palavras-chave em inglês: Slavery;Literary form
CNPq: CNPQ::LINGUISTICA, LETRAS E ARTES::LETRAS
Data do documento: 2026
Citação: MORAIS, Nicole Dourado de. Simetrias inesperadas: a história não-dita do Memorial de Aires, de Machado de Assis. Orientador: Atilio Bergamini Junior. 2026. 161 f. Dissertação (Mestrado em Letras) - Programa de Pós-graduação em Letras, Centro de Humanidades, Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2026.
Resumo: Esta pesquisa logra a análise do último romance de Machado de Assis, o Memorial de Aires (1908), ocupando-se da ideia de que há uma técnica de composição original na obra tardia. Considerado o mais desconforme dentre os romances machadianos, o Memorial pode ser caracterizado sobretudo pelo silêncio que o atravessa e faz dele este livro singular. Acreditamos que, por se tratar de uma narração “silenciosa”, é que muito se aponta a dificuldade de atribuir um “assunto” ao romance. Em contrapartida, é justamente para o “assunto” – ou ainda, para o “pensamento interior e único” – da obra que se chama a atenção no seu texto preambular, a “Advertência”. Na composição da narrativa, consideramos, pois, os seguintes elementos: uma noção preconcebida de “assunto” e um modo específico de narrar, por meio do qual o autor ficcional e as personagens produzem “espaços em branco”, o qual se estende a um modo de pontuar, mediante reticências. A partir da desnaturalização do termo “assunto” e do destaque ao caráter reticente da obra, quer-se discutir aquilo que não é dito na narrativa, e que, recalcado, encontra vias de elaboração, assim nos parece, no que sugerem as reticências, os desvios e as demais fraturas forjadas pelo texto. A nossa hipótese é a de que esses silêncios respondem sempre a um “assunto”: o destino dos libertos após a Abolição. Em efeito, com um recorte temporal que compreende os anos de 1888 e 1889, mas publicado vinte anos depois do período narrado, o Memorial de Aires parece visitar e elaborar o silêncio que atravessou o último quarteto do Oitocentos. A despeito da narração acontecer entre os meses anteriores e posteriores à Abolição, em meio à iminência da proclamação da República, o elemento histórico é apagado na narrativa, recusado pelas vozes nela presentes. Se na superfície do diário do Conselheiro Aires há uma recorrência sobre a experiência privada, a qual figura um enclausuramento que impede inclusive a elaboração de formas, acredita-se que, num nível distinto de profundidade, reside esse outro “assunto”. Para dar conta de narrá-lo, isto é, para dar densidade a um tema que não pode ser propriamente dito salvo pelo silêncio, Machado lança mão de algumas estratégias ficcionais, investigadas neste estudo. Por meio do que chamamos de “simetrias inesperadas”, isto é, movimentos dialéticos que se correspondem na narrativa, e através da ação e da presença de uma nova instância ficcional, o editor, defendemos que um subenredo histórico é amarrado à narrativa principal. Desse modo, Machado de Assis, em seu estilo tardio, não apenas ficcionaliza uma verdade social, uma vez que o silêncio mimetiza os modos pelos quais as elites brasileiras visaram ao apagamento da memória da escravidão, como também articula formas de narrar esse mesmo assunto inconcesso.
Abstract: This research undertakes an analysis of Machado de Assis’s final novel, Memorial de Aires (1908), advancing the idea that his late work displays an original compositional technique. Often regarded as the most unconventional among Machado’s novels, Memorial de Aires may be characterized above all by the silence that permeates it and renders it a singular work. We argue that, precisely because it is a “silent” narrative, it has often been pointed out how difficult it is to assign a clear “subject” to the novel. Conversely, it is precisely the “subject” — or rather, the work’s “inner and singular thought” — that is foregrounded in the prologue, entitled “Advertência”. In examining the narrative’s composition, we therefore consider the following elements: a preconceived notion of “subject” and a specific mode of narration through which the fictional author and the characters produce “blank spaces”, extended into a distinctive mode of punctuation by means of ellipses. By denaturalizing the term “subject” and emphasizing the elliptical character of the work, this study seeks to address what remains unsaid in the narrative and what, repressed, seems to find paths of elaboration in the suggestions conveyed by the ellipses, digressions, and other fractures forged by the text. Our hypothesis is that these silences invariably respond to a specific “subject”: the fate of the formerly enslaved people after Abolition. Indeed, although the narrative time frame encompasses the years 1888 and 1889, the novel was published twenty years after the period it depicts, and Memorial de Aires appears to revisit and work through the silence that marked the final quarter of the 1800s. Despite the fact that the narration unfolds in the months preceding and following Abolition, amid the imminence of the proclamation of the Republic, the historical element is erased from the narrative and rejected by the voices within it. While, on the surface of Counselor Aires’s diary, there is a recurring focus on private experience, suggesting a form of enclosure that even hinders the elaboration of form itself, we argue that, at a different level of depth, this other “subject” resides. In order to narrate it, that is, to lend density to a theme that cannot properly be spoken except through silence, Machado employs certain fictional strategies, which are examined in this study. Through what we term “unexpected symmetries”, that is, dialectical movements that correspond to one another within the narrative, and through the action and presence of a new fictional instance, the editor, we contend that a historical subplot is bound to the main narrative. In this way, Machado de Assis, in his late style, not only fictionalizes a social truth, insofar as silence mimics the ways in which Brazilian elites sought to erase the memory of slavery, but also articulates narrative forms capable of addressing this very unacknowledged subject.
URI: http://repositorio.ufc.br/handle/riufc/86710
Currículo Lattes do(s) Autor(es): http://lattes.cnpq.br/6109745602964245
Currículo Lattes do Orientador: http://lattes.cnpq.br/2909018676095967
Tipo de Acesso: Acesso Aberto
Aparece nas coleções:PPGLE- Dissertações defendidas na UFC

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